Enoturismo Campanha Gaúcha

Roteiro enoturismo Campanha Gaúcha: 6 dias degustando o Pampa

Tem viagens em que a degustação começa muito antes da taça. Na Campanha Gaúcha, ela começa na estrada. Esta foi a minha terceira viagem pelos vinhos da Campanha Gaúcha e, mais uma vez, voltei com a sensação de que conhecer esta região é uma das formas mais autênticas de viajar pelas raízes do Rio Grande do Sul.

Diferente da Serra Gaúcha, a Campanha exige estrada e mais tempo. Em compensação, pelo caminho estão as coxilhas, o gado, o mate, o fogo, a gastronomia campeira e o vento minuano. E ainda: uma cultura de fronteira onde Brasil, Uruguai e Argentina se encontram formando um “blend” de nacionalidades.

Enoturismo Campanha Gaúcha

E há vinho — claro, muito vinho!

Roteiro pela Campanha Gaúcha: o terrroir dos paralelos 29º e 31º Sul

A Campanha Gaúcha é hoje o segundo maior polo produtor de vinhos finos do Brasil, atrás da Serra Gaúcha, respondendo por cerca de 31% da produção nacional.

A área delimitada pela Indicação de Procedência Vinhos da Campanha Gaúcha (IP Campanha Gaúcha) possui 44.365 km² e abrange, integral ou parcialmente, territórios de 14 municípios: Aceguá, Alegrete, Bagé, Barra do Quaraí, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra, Itaqui, Lavras do Sul, Maçambará, Quaraí, Rosário do Sul, Sant’Ana do Livramento e Uruguaiana.

Além disso, é uma região situada entre os paralelos 29º e 31º Sul, justamente em uma faixa de latitude tradicionalmente associada a importantes regiões produtoras de vinhos no Hemisfério Sul, como Argentina, Chile, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália.

Enoturismo na Campanha Gaúcha Roteiro

A Campanha Gaúcha construiu boa parte de sua reputação com vinhos tintos mais estruturados, favorecidos pelo clima, pela boa maturação das uvas e pela força de variedades como Tannat e Cabernet Sauvignon. Mas a região está longe de se resumir a esse estilo. Nos vinhos que destaco neste post, você verá uma Campanha muito mais diversa, com excelentes brancos, rosés, espumantes e até tintos mais leves, frescos e elegantes.

A seguir, conto como foi o nosso roteiro, as vinícolas que conheci, os vinhos que mais chamaram minha atenção e onde nos hospedamos. Importante destacar que todas as vinícolas que vistamos necessitam agendamento prévio das experiências.


Leia também no Café Viagem: antes de montar a viagem, vale entender melhor o terroir e a Indicação de Procedência no meu post Vinhos da Campanha Gaúcha e a Indicação Geográfica


Roteiro pela Campanha Gaúcha: quantos dias e qual a melhor época?

Nosso roteiro foi pensado para aproximadamente seis dias, dividido em três bases:

1. Itaqui e Uruguaiana
Campos de Cima + Bodega Sossego
Hospedagem: Monte Carlo em Uruguaiana

2. Sant’Ana do Livramento e Rivera
NOVA Vinhos + Almabaska + Almadén + Cerro Chapeu + Trem do Pampa + experiências na fronteira
Hospedagem: Hotel Jandaia

3. Bagé e Dom Pedrito
Estância Paraizo + Batalha Vinhas e Vinhos + Guatambu + Cerros de Gaya
Hospedagem: Hotel Obino em Bagé


Primeiramente, já vou avisando que 6 dias para tudo isso é maratona. Caso queira fazer com tranquilidade, acrescente mais uns dois dias. Conto também que, por motivos de compromissos pessoais, não realizei toda a viagem programada para o grupo, ficando Bagé e Dom Pedrito para uma próxima oportunidade. Assim, o principal relato deste post é do roteiro de Itaqui, Uruguaiana e Sant’Ana do Livramento. Para este trecho, dedicaria de 5 a 6 dias.

Já no quesito qual a melhor época para visitar a Campanha Gaúcha, sugiro evitar o verão com temperaturas altísimas. O ideal é programar a viagem durante a primavera ou o outono. Nós fomos durante o inverno e pegamos dias sem sol e muito frio, o que não permitiu algumas atividades ao ar livre nos vinhedos.

enoturismo Campanha Gaúcha Roteiro

Distâncias na Campanha Gaúcha: prepare-se para a estrada

Este é provavelmente o ponto mais importante para quem está planejando um roteiro de enoturismo na Campanha Gaúcha. As distâncias são grandes e é preciso se programar. Por isso, minha primeira recomendação é: não monte um roteiro apertado demais.

E há outro detalhe fundamental quando o motivo da viagem é vinho: tenha motorista. Contratar um receptivo ou definir alguém que não vai beber torna a viagem muito mais tranquila e segura. Afinal, no Pampa, a estrada é parte do roteiro.

  • Porto Alegre → Itaqui: 700 km
  • Itaqui → Uruguaiana: aproximadamente 104 km
  • Uruguaiana → Sant’Ana do Livramento: cerca de 226 km, aproximadamente 3 horas de carro
  • Sant’Ana do Livramento → Bagé: cerca de 163 km, em torno de 2h
  • Bagé → Dom Pedrito: aproximadamente 73 km, em torno de uma hora


Dia 1 Roteiro Campanha Gaúcha: Itaqui e a Vinícola Campos de Cima

Começamos o Roteiro de enoturismo pela Campanha Gaúcha no ponto mais distante a partir de Porto Alegre (RS): Itaqui, na Fronteira Oeste, pertinho da Argentina. Foi lá que conhecemos a Vinícola Campos de Cima, um projeto familiar que nasceu dentro de uma fazenda com mais de 150 anos de história e tradição na pecuária.

A família iniciou a implantação de hectares de vinhedos em 2002. E foi em 2008 que foi criada a Vinícola Campos de Cima, tendo como sócias Hortência Ravache Brandão Ayub e suas duas filhas, Vanessa e Manuela.

Enoturismo: Campos de Cima

Atualmente, a Campos de Cima oferece visitas e diferentes formatos de degustação, sempre com agendamento. Afora degustações, também conta com refeições e até hospedagem.

Vivi aqui uma das experiências gastronômicas mais marcantes do nosso roteiro de enoturismo pela Campanha Gaúcha. Além dos vinhos, provamos uma sopa de trigo da Campanha, daquelas receitas que ajudam a contar um território. O prato principal foi um risoto de cordeiro. Encerramos com um trio de sobremesas de muito respeito: ambrosia, doce de abóbora e de laranja.

Vinhos de destaque Campos de Cima

  • 3 Bocas Branco — Alvarinho, Arinto e Assyrtiko
  • Campos de Cima Viognier

Preciso admitir que sou fã de vinhos brancos. Logo, destaco dois rótulos que me apaixonei. O primeiro, o 3 Bocas Branco, um corte de Alvarinho, Arinto e Assyrtiko. O nome 3 Bocas tem uma história curiosa: é o nome do local onde ficam os vinhedos, são três mulheres proprietárias da vinícola e três castas compõem este vinho.

Outro destaque foi o branco Campos de Cima Viognier, um branco produzido em pequena escala. A vinícola informa produção inferior a 2 mil garrafas por ano e exportação para a Inglaterra desde 2015.

ANOTE:
Vinícola Campos de Cima
BR 472, Km 481, Trevo de Acesso a Itaqui,RS
Site
www.camposdecima.com.br
Instagram @camposdecima

Dia 2 Roteiro Campanha Gaúcha: Bodega Sossego em Uruguaiana

De Itaqui seguimos cerca de 100 km até Uruguaiana, fonteira com Argentina, onde nos hospedamos já no primeiro dia no Hotel Monte Carlo. No turno da manhã e almoço, visitamos a Sossego, uma vinícola que fica dentro da histórica Estância do Sossego, onde a família trabalha com o campo há gerações.

A propriedade está ligada à criação de gado e também à produção de vinhos e espumantes. Aqui a experiência combina visita aos vinhedos, campo e degustação de vinhos. Fomos recebidos pelos irmãos Rene Ormazabal Moura e Irene Moura Dorneles, administradores da Estância e da Bodega Sossego.

Meu vinho destaque na Sossego:

  • Bodega Sossego Rosé — Cabernet Sauvignon

O vinho do cavalinho

Entre os vinhos que provamos, deixo meu destaque para o Bodega Sossego Rosé, que provavelmente muita gente vai reconhecer pelo simpático cavalinho do rótulo. É um rosé de Cabernet Sauvignon.

Free Shop e hospedagem em Uruguaiana

Em Uruguaiana, ficamos no Hotel Monte Carlo, uma opção prática. Oferece conforto sem muitos luxos. E ainda, um excelente café da manhã. Além disso, fica próximo à área de compras do free shop de Uruguaiana. Por sinal, achei os preços por aqui bem atrativos! 

ANOTE:
Bodega Sossego Uruguaiana
Instagram @bodegasossego

Site: www.bodegasossego.com.br

Dias 3 e 4 Campanha Gaúcha: Sant’Ana do Livramento + vinhos da fronteira

De Uruguaiana seguimos aproximadamente 226 km até Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. É a base mais completa para quem quer fazer enoturismo na Campanha Gaúcha: une boas hospedagens, compras em free shop na fronteira, vinícolas próximas e bons restaurantes. 

Livramento (no RS/Brasil) e Rivera (no Uruguai) formam a famosa Fronteira da Paz. Basta atravessar uma rua e você muda de país, sem muros, sem barreiras. Aliás, não são apenas as ruas e costumes que se misturam por aqui. Os vinhos, também. O Tannat, uma das uvas mais emblemáticas do Uruguai, também tem excelente adaptação neste terroir brasileiro.

Onde ficar em Sant’Ana do Livramento

Nossa base em Sant’Ana do Livramento foi o Hotel Jandaia. Trata-se de uma hospedagem tradicional e muito bem localizada para quem pretende conciliar vinícolas, restaurantes e as inevitáveis compras em Rivera. De quebra, o café da manhã é bem completo. Mas uma dica importante: opte por acomodação na parte nova!

Vinícolas da Campanha Gaúcha na fronteira:  Nova Aliança, Almadén, Almabaska e Cerro Chapeu.

1. NOVA Vinhos e Espumantes

Em Sant’Ana do Livramento, nossa primeira parada foi na NOVA Vinhos e Espumantes, marca ligada à Nova Aliança Vinícola Cooperativa, vinícola de 1929. A unidade da Campanha Gaúcha ainda não oferece grandes atrações de enoturismo, mas, em compensação, os vinhos são um capítulo à parte. 

Para o nosso grupo, foi agendado previamente um churrasco com visita e degustação. Quem nos recebeu foi o enólogo André Gasperin que desde 2023 vem fazendo um trabalho incrível com a qualidade dos vinhos da NOVA.


Meus vinhos destaques NOVA:

O rosé da NOVA mostra, como a Tannat pode aparecer por aqui também em versões mais leves e descontraídas. Já o Cerro da Cruz Cabernet Sauvignon foi um dos tintos mais elegantes que provei nesta viagem. Tem vários destaques em premiações.

  • Cerro da Cruz Cabernet Sauvignon
  • NOVA Tannat Rosé

ANOTE:
NOVA Vinhos e Espumantes – Nova Aliança

Sant’Ana do Livramento, RS
Instagram @novavinhoseespumantes
Site: novaalianca.coop.br/nova

2. Almabaska: azeites e vinhos

Um projeto mais jovem – que vale prestar atenção em Sant’Ana do Livramento – é a Almabaska. Criação de dois irmãos de origem basca, Álvaro e Sílvia Arteche. Eles recebem turistas com agendamento prévio em sua propriedade em frente ao Cerro Palomas

Desde 2005, cultivam variedades como Tannat, Arinarnoa, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Pinot Noir. Os rótulos contam com a colaboração do renomado enólogo uruguaio Alejandro Cardozo. Não é a toa que na edição do Guia Descorchados 2026, a vinícola conquistou ótimas pontuações, com um rótulo que um recomendo fortemente:

  • Céus do Pampa Nature Rosé 2025 — 90 pontos no Guia ADEGA Brasil 2026 e 91 pontos no Guai Descorchados 2026, espumante Nature de Tannat elaborado pelo método tradicional.

Certamente, mais uma prova de que a Campanha não é feita apenas de tintos estruturados.

ANOTE:
Almabaska – Palomas, Sant’Ana do Livramento RS
Site @almabaska_oficial

3. Almadén: um clássico da Campanha Gaúcha

Se você quer entender a história do vinho na Campanha, é difícil passar por Sant’Ana do Livramento sem falar da Almadén. Atualmente, pertencente ao Grupo Miolo, é uma das vinícolas mais tradicionais da região e teve papel importante na consolidação da vitivinicultura da Campanha.

Apesar do mau tempo, a visita incluiu um passeio pelos vinhedos históricos, seguido de uma degustação de alguns dos rótulos icônicos da vinícola. O tour terminou com um churrasco, previamente agendado para o grupo, acompanhado da degustação de um dos meus rótulos preferidos da Miolo: o Miolo Vinhas Velhas Tannat.

Meus vinhos destaques na Almadén:

  • Miolo Vinhas Velhas Tannat
  • Miolo Single Vineyard Riesling Johannisberg

>> saiba mais sobre a visita a Almadén neste post de Café Viagem

Trem do Pampa + visita Almadén

Lembrando que a visita à vinícola Almadén pode ser combinada com o passeio no Trem do Pampa.
Saiba mais em www.tremdopampars.com.br

ANOTE:
Almadén – Grupo Miolo

Estrada Municipal Livramento – Passo da Cruz, Sant’Ana do Livramento, RS
Site www.almaden.com.br
Instagram
@vinicola.almaden

4. Cerro Chapeu: a bodega doble chapa, entre Brasil e Uruguai

E já que estávamos em Sant’Ana do Livramento, atravessamos a fronteira para visitar a Bodega Cerro Chapeu que tem vinhedos tanto no Brasil quanto no Uruguai, no departamento de Rivera. Por isso, uma vinícola “doble chapa” — expressão típica da fronteira usada para quem tem dupla nacionalidade brasileira e uruguaia.

A história da Bodega Cerro Chapeu faz parte da longa trajetória vitivinícola da família Carrau, que produz vinhos há dez gerações. Durante muitos anos, os vinhos produzidos tanto no sul quanto no norte do Uruguai estiveram ligados à marca Bodegas Carrau.

Porém, os cinco irmãos que administram o negócio decidiram dividir as unidades da família. A vinícola e os vinhedos de Colón, próximos a Montevidéu, permaneceram como Bodegas Carrau, enquanto a propriedade de Rivera, no extremo norte do Uruguai, passou a seguir seu próprio caminho sob o nome Cerro Chapeu

Na Bodega Cerro Chapeu tivemos a mais extensa degustação da viagem em número de rótulos. Foi conduzida por Margarita Carrau, uma das proprietárias da vinícola, acompanhada de deliciosos queijos e empanadas. Destaco 4 vinhos que você não pode deixar de provar

Meus vinhos destaque Cerro Chapeu

  • 1752 Gran Tradición Petit Manseng + Viognier
  • Cerro Chapeu Sauvignon Blanc
  • Cerro Chapeu Pinot Noir
  • Batovi Tannat T1 Single Vineyard

ANOTE:
Bodega Cerro Chapeu – Rivera e Sant’Ana do Livramento
Degustações e visitas somente com agendamento
Site
www.cerrochapeu.com
Instagram @bodegacerrochapeu

DIAS 5 e 6: Bagé e Dom Pedrito – o roteiro que ficou para a próxima

O grupo que viajei seguiu rumo à Bagé e Dom Pedrito, duas regiões fundamentais dentro da rota de vinhos da Campanha Gaúcha.

No programa estavam:

Estância Paraizo
Batalha Vinhas e Vinhos
Guatambu Estância do Vinho
Cerros de Gaya

roteiro Campanha Gaúcha vinícolas
Vinícola Guatambu em Dom Pedrito – foto divulgação

Mas eu precisei interromper a viagem e voltar para Porto Alegre para a formatura da minha filha. Por isso, não vou incluir neste relato avaliações das experiências e dos vinhos que não provei nesta viagem! Eles ficam oficialmente na lista do “preciso voltar”.

Degustando o enoturismo da Campanha Gaúcha: conclusões

Percebo que desde a minha primeira viagem de enoturismo à Campanha Gaúcha, em 2016, os vinhos evoluíram muito e, as experiências estão ficando mais interessantes e completas. Em contrapartida, estradas, serviços turísticos e principalmente a oferta de hospedagens de maior charme ainda precisam acompanhar esse crescimento. Fico na torcida, principalmente por melhorias nas rodovidas, para que essa estrutura acompanhe a qualidade dos fascinantes vinhos do Pampa.

Esta viagem foi realizada a convite da Agência ConceitoCom, com apoio da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha e do Sebrae RS. O convite não interfere no conteúdo deste artigo: as opiniões, impressões e recomendações publicadas aqui refletem exclusivamente a minha experiência durante a viagem.

SAIBA MAIS

Vinícolas da Campanha Gaúcha
Site: www.vinhosdacampanha.com.br
Instagram: @vinhoscampanhagaucha

Saiba mais sobre os Vinhos da Campanha Gaúcha no Café Viagem

Quais são as Vinícolas da Campanha Gaúcha: destaques e novidades

Vinhos da Campanha Gaúcha – Indicação Geográfica

Visita a vinícola Almadén em Santana do Livramento

GUATAMBU – ESTÂNCIA DO VINHO

FRONTEIRA RS RIVERA: Bodegas Carrau, agora Cerro Chapeu

Ferradura dos Vinhedos – Rota turística do Vinho Gaúcho na Fronteira

GUIA LIVRAMENTO-RIVERA – POST ÍNDICE

ROSÁRIO DO SUL:  conhecendo a Vinícola do vinho da Kombim Routhier & Darricarrrère

Turismo Farroupilha – minha coluna em GZH

Alexandra Aranovich Vinícola Larentis balanço

Oi, sou a Alexandra Aranovich

Autora do blog Café Viagem, criadora de conteúdo e sommelier. Degusto a vida entre vinhos, viagens e café da manhã. Moro em Porto Alegre, mas vivo com o coração no mundo. Como posso te ajudar a degustar teu sonho?

Saiba mais sobre mim »

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *